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John Newton: autor do hino “Amazing Grace”

O ano de 2025 marca o tricentenário de nascimento do pastor britânico do século 18 que compôs o hino mais conhecido na língua inglesa – “Amazing Grace”. Todavia, existem muitas outras coisas importantes na vida desse personagem além do seu conhecido hino, como John Piper demonstrou numa conferência para pastores em 2001.

John Newton nasceu no dia 24 de julho de 1725, em Londres. Seu pai era um marinheiro descrente, porém a mãe uma mulher piedosa, filiada à igreja congregacional, que ensinou ao seu único filho o Catecismo de Westminster e os hinos de Isaac Watts. Tristemente, ela faleceu quando John tinha apenas seis anos e a segunda esposa do pai não nutria interesses religiosos. Durante a infância, o menino frequentou a escola, um internato em Stratford, somente dos oito aos dez anos. Nunca mais iria estudar formalmente nem receber uma educação teológica, sendo essencialmente um autodidata.

Aos 11 anos, começou a viajar de navio com seu pai, um homem extremamente severo, e até os 18 anos fez cinco viagens ao Mediterrâneo. Ingressando na Marinha contra a sua vontade, teve péssimas companhias e afastou-se completamente de Deus. Dois anos depois, desertou e foi disciplinado. Aos 20 anos, foi deixado numa pequena ilha perto de Serra Leoa, na África Ocidental, e por cerca de um ano e meio viveu como verdadeiro escravo, em circunstâncias precárias. A esposa do seu senhor o desprezava e o tratou cruelmente. Finalmente, o capitão de um navio que aportou na ilha e era conhecido de seu pai conseguiu libertá-lo do cativeiro. Durante mais de um ano viajou nesse navio.

No dia 21 de março de 1748, quando retornava para a Inglaterra, uma violenta tempestade foi o meio que Deus usou para tocar o seu coração. Após dois dias de extenuante luta contra o mar revolto, ele começou a orar e a ler as Escrituras, recebendo especial conforto de Lucas 11.13. Embora muito importante para ele ao longo da vida, essa experiência mais tarde não seria considerada uma verdadeira conversão. Nos seis anos seguintes, sem ter um amigo ou pastor para aconselhá-lo, foi capitão de um navio utilizado no comércio de escravos. Futuramente viria a sentir profundo remorso por ter se dedicado a essa atividade nefasta e participou ativamente da campanha pela sua extinção.

Aos 17 anos havia se apaixonado pela menina Mary Carlett, de apenas 13. Nos sete anos seguintes de viagens e aflições, jamais se esqueceu dela por um momento. Finalmente se casaram em fevereiro de 1750 (o mesmo ano em que ele perdeu o pai) e assim permaneceram por 40 anos, até ela falecer em 1790. Seu amor por Mary foi extraordinário. Três anos depois que ela morreu, publicou uma coleção de cartas que lhe havia escrito durante três longas viagens à África depois que se casaram. Após essas viagens, nas quais a esposa ficava sozinha por muitos meses, Newton teve um ataque epilético, em 1754, a nunca mais velejou.

Nos anos seguintes trabalhou como Inspetor de Marés em Liverpool e foi um ativo ministro leigo. Foi impactado pelo Avivamento Evangélico que sacudia a Inglaterra, em especial pelas vigorosas pregações de George Whitefield. Aspirando ao ministério, dedicou-se a um rigoroso programa de estudo pessoal, começando com os idiomas grego, hebraico e siríaco. Leu os melhores autores de teologia da época, em latim, inglês e francês, abraçando fortemente as convicções calvinistas. Acima de tudo, dedicou-se ao estudo profundo das Escrituras.

Em 1764, aceitou o chamado para pastorear uma paróquia da Igreja da Inglaterra em Olney, onde permaneceu por quase 16 anos. No final de 1779, aos 54 anos, foi convidado para a igreja de St. Mary’s Woolnoth, em Londres, que pastoreou por longos 26 anos, até outubro de 1806. Pouco antes, ao completar 80 anos, foi aconselhado pelo amigo Richard Cecil a parar de pregar, ao que respondeu: “O quê? O velho blasfemador africano irá parar enquanto ainda pode falar?” O casal não teve filhos naturais, mas adotou duas sobrinhas. Depois que Mary morreu, 17 anos antes dele, o ilustre pastor foi morar com a família de uma dessas sobrinhas, que cuidou dele com grande dedicação.

John Newton morreu no dia 21 de dezembro de 1807, aos 82 anos. Ele havia escrito o seu próprio epitáfio: “John Newton, funcionário, antes um infiel e libertino, servo de escravos na África, foi, pela rica misericórdia de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, preservado, restaurado, perdoado e incumbido de pregar a fé que por muito tempo havia lutado para destruir, quase 16 anos em Olney, em Bucks, e 28 anos nesta igreja”. Em seu testamento, ele declarou: “Entrego minha alma ao meu gracioso Deus e Salvador, que misericordiosamente me poupou e me preservou quando eu era um apóstata, um blasfemo, um infiel, e me livrou do estado de miséria na costa da África no qual minha impiedade obstinada me havia mergulhado, e que aprouve me receber (embora mui indigno) para pregar o seu glorioso evangelho”.

John Piper destaca algumas qualidades marcantes de Newton, a começar do seu coração generoso. Amava as pessoas de modo geral, em especial os perdidos, as crianças e o seu próprio rebanho. Foi excepcional o seu carinho por William Cowper, um poeta e compositor mentalmente enfermo que foi sua ovelha por 12 anos em Olney. Newton acolheu em sua casa durante dois períodos, um de cinco meses e outro de quatorze meses, o autor do hino “Deus se move de forma misteriosa”, que se defrontava com violentas crises de depressão. Também auxiliou o jovem missionário Henry Martyn e o reverendo Thomas Scott, que o sucedeu no pastorado em Olney.

O dedicado pastor demonstrava uma mescla de forte convicção e ao mesmo tempo grande suavidade em questões doutrinárias, evitando controvérsias. Como poeta inspirado, demonstrou aguda sensibilidade espiritual e profundo encantamento com as “doutrinas da graça”. O clássico “Amazing Grace”, escrito para acompanhar um sermão de Ano Novo baseado nas palavras do rei Davi em 1 Crônicas 17.16, foi acima de tudo um vibrante testemunho de fé pessoal: “Graça surpreendente! Quão doce é o som que salvou um miserável como eu. Eu estava perdido, mas fui achado; estava cego, mas agora vejo”.

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