IPB: História e Identidade
Curadoria dos Museus da IPB

Concílio de Niceia: 1700 anos

Como é natural, desde o início do cristianismo a verdadeira identidade de Jesus despertou imenso interesse da parte dos seus seguidores, principalmente sua relação com Deus Pai. Quem era Jesus realmente, no seu ser mais essencial? Todavia, a influência do pensamento grego e a própria linguagem bíblica resultaram em diferentes entendimentos sobre a pessoa do Redentor, com suas dimensões divina e humana. Os chamados docetistas, por exemplo, negavam a humanidade do Filho de Deus, dizendo que sua encarnação foi apenas aparente, não real. Já os monarquianos, preocupados com a unidade do Ser Supremo, acreditavam que Pai, Filho e Espírito Santo eram diferentes manifestações ou modos da mesma pessoa divina. Daí essa posição também ser denominada modalismo. Outros, conhecidos como adocionistas, entendiam que Jesus era um homem como os demais, que foi adotado por Deus e revestido de atributos especiais.

            No início do 4º século, surgiu uma nova posição. Ário, um presbítero ou sacerdote da igreja de Alexandria, no Egito, começou a ensinar que Jesus, embora muito superior aos seres humanos, era nitidamente inferior ao Pai. Apelando à terminologia bíblica que descrevia o Senhor Jesus como “unigênito” ou “primogênito”, ele passou a afirmar que o Filho foi literalmente gerado ou criado pelo Pai, antes da fundação do mundo. Essa proposta foi condenada pelo bispo de Alexandria, mas encontrou muitos simpatizantes. O resultado foi uma enorme controvérsia, que ameaçava a harmonia e unidade não só da igreja, mas do próprio império. Preocupado, o imperador Constantino, que desde o início do seu reinado havia se identificado com a fé cristã, resolveu convocar uma grande assembleia de bispos para discutir a questão. Esse importante concílio eclesiástico, o primeiro de seu gênero, ocorreu na cidade de Niceia, a pequena distância de Constantinopla, a magnífica capital construída pelo monarca. O ano foi 325, de maio a julho, há exatos 1.700 anos.

            A maior parte dos bispos participantes era procedente da parte oriental do Império Romano, de língua grega. Ário, não sendo bispo, e sim presbítero, não participou oficialmente do encontro, mas foi representado por alguns influentes partidários, em especial o bispo Eusébio de Nicomédia. Depois de muita discussão acalorada, na qual houve até mesmo a interferência pessoal do próprio imperador, foi aprovado o Credo de Niceia, um dos documentos mais importantes da história da igreja. Sua declaração mais decisiva é que Jesus Cristo, longe de ser uma criatura exaltada, é “consubstancial com o Pai” (em grego, homoousios to Patri), ou seja, possui a mesma substância ou natureza que o Pai, sendo, portanto, coigual e coeterno com o Pai. Estavam lançados os fundamentos teológicos da doutrina da Trindade.

            Foram muitos os argumentos utilizados em defesa dessa conclusão, vários deles propostos pelo jovem diácono e teólogo Atanásio, que se tornaria destacado bispo de Alexandria por quase meio século (328-373). Se Jesus é uma criatura, como defendia Ário, a igreja é culpada do pecado de idolatria ao prestar culto a ele. Se o Filho não existia antes de ser criado pelo Pai, isso significa que o Pai nem sempre foi Pai: ele só se tornou tal após a criação do Filho. Porém, o argumento mais importante foi que negar a divindade e a personalidade distinta de Jesus Cristo colocava em dúvida a própria salvação. Se o Redentor não fosse plenamente divino, ele não poderia realizar, de modo cabal e eficaz, a mediação e reconciliação entre Deus e os seres humanos. O Credo de Niceia manteve a linguagem bíblica de geração, mas a entendeu como distinta de criação (“gerado, não feito”). Em outras palavras, no que diz respeito ao Ser Divino a linguagem de Pai e Filho não tem um sentido cronológico ou temporal, mas relacional e eterno. O Filho de Deus, como afirmaram teólogos do 4º século, é “eternamente gerado pelo Pai”.

As conclusões de Niceia solidificaram a posição do cristianismo ortodoxo, mas não puseram fim à controvérsia, que ainda perdurou por várias gerações. Apesar de condenado formalmente, o arianismo teve longa sobrevida e importantes defensores. Por fim, vários fatores contribuíram para a consolidação da ortodoxia nicena, a começar do chamado Edito de Tessalônica, promulgado pelo imperador Teodósio no ano 380, que tornou o cristianismo trinitário a religião oficial do Império Romano. No ano seguinte, o segundo concílio ecumênico, reunido em Constantinopla, reafirmou e expandiu o Credo de Niceia, acrescentando uma declaração mais detalhada sobre o Espírito Santo. Contribuíram para esses desdobramentos as brilhantes reflexões de vários teólogos de língua grega – o já referido Atanásio e os chamados “três capadócios”, Basílio de Cesareia, Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa.

Por dezessete séculos, as declarações do Concílio de Niceia sobre Jesus Cristo têm sido abraçadas pela grande maioria dos cristãos, sejam eles ortodoxos gregos, católicos ou protestantes. Apesar dos questionamentos de unitários e liberais, com sua tendência de negar ou subestimar o caráter transcendente de Cristo, a crença na personalidade distinta e na plena divindade do Salvador tem sido uma das mais importantes convicções cristãs, com vastas implicações para toda a teologia, a começar das doutrinas da criação e da redenção. Mais do que isso, os que creem nessa verdade sublime e profunda entendem que ela está, acima de tudo, em total harmonia com o testemunho da Escritura. “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus… E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.1, 14).

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