A cofundadora da Escola Americana de São Paulo nasceu em Albany, capital do Estado de Nova York, em 12 de outubro de 1840. Era filha de Lawson Annesley e Laura Jones Annesley, e teve dois irmãos, Richard Lord e Laura. Recebeu os prenomes da primeira esposa de seu pai, um comerciante e empresário que possuía magnífica loja e galeria de arte em Albany, fundada por seu pai em 1802.[1] Segundo consta, Mary Ann estudou na escola de Miss Porter em Farmington, Connecticut, bem como na Suíça. No entanto, não existem maiores informações sobre a sua formação educacional.
Em 30 de junho de 1868, aos 27 anos, casou-se em sua cidade natal com o Rev. George Whitehill Chamberlain. A cerimônia foi realizada na residência dos pais da noiva, sendo oficiada pelos Revs. Daniel Stewart e Elias R. Beadle. Este último, pastor da 2ª Igreja Presbiteriana de Filadélfia (1865-1879), era tio de Mary Ann. Sua primeira esposa, Hannah, era irmã de Laura Jones, a mãe da noiva.[2] George Chamberlain, nascido em 1839, era filho de um pastor que trabalhou como missionário no noroeste da Pensilvânia. O jovem estudou no Delaware College e depois no Seminário Teológico Union, em Nova York. Todavia, precisou interromper os estudos por causa de um problema nos olhos. A conselho médico, veio para o Brasil em meados de 1862, a fim de “recuperar a vista estragada nos estudos”.
Enquanto dava aulas de inglês para se sustentar, Chamberlain, que era grande entusiasta da evangelização, começou a colaborar com os Revs. Alexander Blackford e Ashbel G. Simonton, no Rio e em São Paulo. Empolgados com sua dedicação e aptidões, eles obtiveram sua nomeação como “missionário coadjutor”. Finalmente, no dia 8 de julho de 1866, Chamberlain foi ordenado durante a segunda reunião do Presbitério do Rio de Janeiro, realizada na capital do Império, tornando-se o segundo ministro presbiteriano ordenado no Brasil. Foi precedido por José Manoel da Conceição, ordenado no final do ano anterior. Pouco após a ordenação, seguiu para a pátria a fim de completar os estudos teológicos no Seminário de Princeton.
O casal partiu para o Brasil em setembro de 1868, chegando no mês seguinte, após 55 dias de viagem. Inicialmente residiram no Rio de Janeiro. Na ausência de Blackford, em viagem à pátria, Chamberlain o substituiu no pequeno seminário anexo à igreja, ministrando aulas sobre a Confissão de Fé de Westminster aos quatro estudantes.[3] O casal colaborou com a escola dominical e com uma pequena escola paroquial da igreja do Rio. Nessa época, Chamberlain enviou interessante artigo à revista The Foreign Missionary sobre uma visita que fizeram no dia 30 de junho de 1869 ao famoso Jardim Botânico, acompanhando as crianças da igreja.[4] Dois meses depois, em 30 de agosto, nasceu a primogênita Laura.
Pouco mais tarde, no início de outubro, a família transferiu residência para a capital paulista, onde o Rev. Chamberlain assumiu o pastorado da igreja presbiteriana local. No primeiro semestre do ano seguinte (1870), em data que não ficou registrada, Mary Ann começou a dar aulas para um grupo de meninas no alpendre de sua bonita residência, localizada no Bom Retiro, a poucos passos do Parque da Luz. O imóvel estava localizado na antiga Rua Visconde de Congonhas do Campo (hoje Afonso Pena), na esquina com a atual Ribeiro de Lima. Foi ali que nasceu a Escola Americana, embrião do futuro Mackenzie College. No ano seguinte, a escola foi organizada formalmente nas dependências da Igreja Presbiteriana, na Rua de São José (atual Líbero Badaró), a poucos metros do Largo de São Bento. Poucos anos depois, em 1876, passou a ocupar um espaçoso edifício próprio, na esquina das ruas de São João e do Ipiranga.
Ao longo desses anos, a professora Mary Ann procurou colaborar com a nova escola na medida do possível. Porém, as responsabilidades familiares passaram a absorver cada vez mais o seu tempo. Além da menina Laura, nascida no Rio de Janeiro, foram chegando outros filhos em São Paulo: Pierce (01.04.1872), Mary Christine (02.11.1873), Ruth (27.05.1875), Helen Elizabeth (24.02.1877), George Agnew (15.03.1879) e Daniel Stewart (02.12.1881). A pequena Ruth morreu com dez meses e meio; mais tarde o pai escreveu sobre ela em um formulário: “Com o Senhor desde 14 de abril de 1876”. No início do ano em que nasceu o filho mais novo (Daniel), o pai de Mary Ann, Lawson Annesley, faleceu em Albany aos 85 anos.[5] A primogênita Laura viria a se casar com o Rev. William Alfred Waddell, ilustre missionário. O segundo filho (Pierce) tornou-se pastor e trabalhou como missionário na Bahia.
Em 1874, o casal Chamberlain adquiriu de D. Maria Antônia da Silva Ramos um amplo terreno na esquina das ruas Maria Antônia e Itambé, no arrabalde da Consolação, tendo em vista a futura ampliação da Escola Americana. Nesse local foi inaugurado em 1885 o edifício do internato masculino, o primeiro do futuro campus. No ano seguinte, o casal assinou a escritura de doação do imóvel à Sociedade Presbitério do Rio de Janeiro, expressando o desejo de que fosse para sempre destinado à educação em bases cristãs.
Por um lapso, Mary Ann só foi arrolada como membro da Igreja Presbiteriana de São Paulo em 1887, quase duas décadas após a sua chegada à cidade. Nesse ano, o Rev. Chamberlain encerrou o seu ministério à frente dessa igreja histórica, mas continuou residindo na cidade. A essa altura, os dois filhos mais velhos estavam estudando nos Estados Unidos. Nos anos anteriores e nos seguintes, o missionário fez muitas viagens evangelísticas no interior paulista e em outros estados, bem como ao país natal, acompanhado pela esposa. Em 1892, após mais de vinte anos em São Paulo, a família se transferiu para Salvador, na Bahia. Chamberlain assumiu o pastorado da igreja e passou a fazer longas viagens evangelísticas pelo interior baiano, enquanto Mary Ann ficava com os filhos. Em 1896, passaram a residir na cidade de Feira de Santana, onde criaram uma escola.
No segundo semestre de 1899, Mary Ann passou pela experiência devastadora de perder dois filhos jovens, vitimados pela febre amarela. Em 4 de setembro faleceu a professora Mary Christine, de 25 anos, e em 6 de dezembro, Daniel Stewart, de 18, que era estudante no Mackenzie College e tinha ido passar as férias em casa. Diante disso, no ano seguinte a família foi residir em São Félix, defronte a Cachoeira, no rio Paraguaçu, onde existia uma igreja organizada em 1875, na qual Mary Ann foi arrolada em maio de 1901. A Escola Americana foi transferida para essa cidade, onde funcionou por vários anos, tendo como uma das professoras a outra filha, Helen Chamberlain. A Sra. Mary Ann ficou responsável pelo internato feminino, cuidando das alunas vindas de outros locais.
A vida do Rev. Chamberlain estava chegando ao fim e Mary Ann acompanhou a enfermidade e últimos dias do esposo. Ele esteve por duas vezes no seu país em 1902, em busca de tratamento para um câncer na boca. Escrevendo em 30 de maio de 1902 ao Dr. Frank Ellinwood, da Junta de Nova York, ela afirmou:
“Embora eu soubesse que o caso do Sr. Chamberlain era grave, de modo algum imaginava quão grave até que chegaram as cartas. A carta do Dr. Lane ao meu filho George foi muito desanimadora, dando pouca ou nenhuma esperança, mas confio que ele esteja errado e que o tratamento que o Sr. Chamberlain está recebendo neste momento possa se mostrar mais eficaz do que o Dr. Lane pensa… Se os meios utilizados se revelarem incapazes de deter a doença, espero que ele tenha condições de voltar para cá… Ele ama o Brasil e sempre disse que esperava terminar os seus dias aqui”.[6]
Acrescentou: “Sei, no entanto, que ele está nas mãos do Senhor e estou certa de que Ele fará o que seja melhor. É um conforto saber que o Sr. Chamberlain está em tão boas mãos e tem tantos amigos gentis para lhe mostrar simpatia”. Concluiu com a informação de que o templo de São Félix estava subindo lentamente e que o velho amigo José Carlos Rodrigues havia contribuído com dois contos de réis.
O valoroso missionário faleceu no dia 31 de julho de 1902. Dirigindo-se ao Dr. Ellingwood alguns dias depois, Mary Ann declarou:
“Como o senhor já sabe, a convocação chamando meu querido esposo para o lar chegou no dia 31 de julho, por volta do pôr do sol. Embora soubéssemos que os seus dias na terra estavam contados, ainda assim não achávamos que eles terminariam de modo tão rápido. No entanto, não podemos deixar de considerar isto uma das grandes misericórdias do Senhor, poupando-o de uma longa e dolorosa enfermidade. Ele manteve a coragem até o fim. Perto do final, só podia se comunicar conosco muito pouco, pois só podia fazê-lo por escrito, mas uma das últimas coisas que escreveu foi: ‘Não há vale escuro quando Jesus vem levar o seu povo para o lar’. Estou muito grata porque lhe foi permitido voltar para nós. As lembranças das semanas desde o seu retorno sempre estarão entre as mais preciosas da minha vida”.[7]
Após a morte do esposo, a professora Mary Ann permaneceu por mais algum tempo no seu posto de trabalho em São Félix e depois em Cachoeira, como diretora do Colégio Americano, onde contou com a colaboração da filha Helen e das cunhadas Mary e Elizabeth. Em meados de 1904, devido a problemas de saúde, apresentou à Junta de Nova York o seu pedido de demissão, a se efetivar em 31 de dezembro. Todavia, permaneceu em Cachoeira até maio de 1906, quando retornou definitivamente aos Estados Unidos, acompanhada da filha Helen e da cunhada Mary Chamberlain. Mãe e filha foram residir na cidade de Bridgeton, no sul de Nova Jersey, tendo como endereço a rua West Commerce, 99. Esse imóvel existe até o presente.
Mary Ann continuou atenta ao trabalho missionário na Bahia. Quando o templo de Cachoeira, construído com tanto sacrifício, desabou por uma falha estrutural durante uma enchente (26.10.1906), ela enviou uma das maiores ofertas para a reconstrução. Em 1910, quando o Rev. Álvaro Reis, primeiro moderador da Assembleia Geral da IPB, fez longa viagem aos Estados Unidos, visitou-a na residência do casal Howell em Filadélfia. Seu primo Heber Hamilton Beadle, que foi pastor por meio século da Segunda Igreja Presbiteriana de Bridgeton, residiu em sua casa nos últimos anos de vida (1916-1922).[8] Mary Ann era muito próxima do filho George Agnew, que foi um escritor de relativo sucesso. Por muitos anos, ela orou fervorosamente pela sua conversão, e no final da vida residiu com ele em Lloyd’s Landing, Quinton, Nova Jersey.
A cofundadora da Escola Americana encerrou a jornada terrena no dia 10 de maio de 1930, em sua residência, com quase 90 anos. Um jornal da região declarou que ela teve “uma carreira pitoresca” e que ajudou o Brasil.[9] A Junta de Missões Estrangeiras registrou em ata: “Por 38 anos a Sra. Chamberlain viveu e trabalhou no Brasil, entregando-se ao trabalho com todos os talentos de sua bela e graciosa personalidade e dividindo com o esposo a separação, dificuldades e perigos do trabalho dele… Seus filhos, tanto em sua própria família como na grande família da igreja, têm razões para chamá-la bem-aventurada; suas obras a louvam nos portais de Deus”.[10] Seu túmulo está localizado no antigo cemitério Old Broad Street, próximo ao antigo templo da Igreja Presbiteriana, consagrado em 1795. Além de Mary Ann, a bonita pedra tumular contém os nomes de muitos outros membros da família.
Sua filha Helen casou-se com o Rev. James M. Eakins, pastor por longos anos da Igreja Presbiteriana de Bridgeton, vindo a falecer em 5 de janeiro de 1946, aos 68 anos. O neto Richard Lord Waddell, filho de Laura, foi o último presidente do Instituto Mackenzie, antes da doação do patrimônio à Igreja Presbiteriana do Brasil, em 1961. Um filho deste, Richard L. Waddell Jr., visitou a instituição em 2003. Mary Ann Annesley Chamberlain teve uma atuação discreta e modesta na obra presbiteriana no Brasil, mas deu uma colaboração decidida para a educação em bases cristãs no Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia. Em especial, seu trabalho foi de grande valor para o surgimento e consolidação da grande instituição educacional que é o Instituto Presbiteriano Mackenzie.
Rev. Alderi Souza de Matos
Historiador da IPB
[1] MATOS, Alderi S. “Lawson Annesley (1795-1881)”. Brasil Presbiteriano, ago. 2018, p. 13.
[2] Ver ROCHLEN, Roger. Onward Christian soldier: the life of Rev. E. R. Beadle. Klamshell Press, 2015.
[3] CARVALHOSA, Modesto P. B. de. “Some reminiscences”. The Church at Home and Abroad, nov. 1896, p. 353.
[4] Ver RIBEIRO, Boanerges. Protestantismo e cultura, p. 268-270 (transcrito do periódico The Foreign Missionary, nov. 1869).
[5] The New York Times, 04/01/1881, p. 5. O falecimento ocorreu no dia anterior.
[6] Carta de Mary A. Chamberlain a Frank Ellinwood, 30/05/1902.
[7] Carta de Mary Chamberlain a Frank Ellinwood, 04/09/1902.
[8] ROCHLEN, Onward Christian soldier.
[9] The Morning Post (Camden), 12/05/1930, p. 3.
[10] Board of Foreign Missions, Minutes, 19/05/1930, PHS.